Sobre fins & libido

Ao te ver, primeiro senti na língua
Todo o amargo de tuas aflições
Depois, a pele balbucia breves histórias noturnas
Como no dia em que quebrei o teu copo
E o meu corpo
Em cima do teu

Foi tanto sangue que só se podia sentir ferver
Cacos e caos

Quis morrer de gemer
Quis contornar teus traços com o cigarro
Quis soprar as cinzas pela janela
Quis ser toda tua

Mas, no fim, você só queria partes
Buracos
Abismos
Que alargassem ainda mais o teu vazio

Setembro, se bem me lembro…

setembro, se bem me lembro
nunca foi tempo ruim, alagado
flores e rituais jazem nos dados
que saltam de uma memória a outra
de uma prece a outra
de uma calamidade intensa; por quê?

ah, de um amor pungente e tamanho
entre raios transparentes
mas que se sente
como um órgão arrancado

não mente
quem diz que Setembro é sujeito cálido
que paixões derretem compondo causos
de hoje, verão, do caos, do mundo
de um perfume… pois que balsâmicos todos o são

setembro é todos, mas enquanto um
é recomeço…

Fuga

Vó Rosa me falava sobre sereias. Dizia que, certa vez, quando criança, estava de cavalo com sua mãe, Isabel, às margens do Rio Guaribas (localizado em Bocaina, sul do Piauí, minha cidade natal), quando ouviu uma voz que se alastrou pelos ares. Lá estava: uma mulher encantadora penteando seus longos cabelos, cantando à natureza. Nadava tão rápido que, em questão de segundos, sumiu por entre as águas, como mágica.

Eu via, nos olhos da minha avó, saudade, além de uma verdade que me aquecia o espírito e que ainda que me aquece, pois verdades não se vão. Naqueles instantes em que pude desfrutar de sua companhia, tive certeza de que somos o próprio cosmos, todos nós. Que o amor é consciência. Que o inferno é medo. Que poesia é percepção, nada menos do que ser, portanto infindável. Hoje, assim como em todo o meu existir, rogo pela bênção dos meus ancestrais.

Recordo-me de acordar com essa lembrança no meu 6° dia de isolamento. Tantas mortes, e a vida em mim pulsando me causava a sensação de que eu seria a próxima. E que, se fosse pra ser, meu Deus, que me levasse para junto de minha vó Rosa, onde pudéssemos ouvir as sereias. Eu sentia cada víscera em seu percurso breve. Voltava a me torturar com a sensação de que não era boa o suficiente para sobreviver nesta pandemia e de que Deus sabia disso e já havia colocado o meu nome na lista. 

Eu me sentia inconsolável. Diante desta experiência sufocante, recorri à escrita. Não suportava ouvir meus pensamentos, pois eles tinham a minha voz, impenitente, em busca de um refúgio.